Teatro de Animação x Teatro de Atuação

A experiência viva do Teatro de Fantoches ganhou transformações importantes durante o século XX. As vanguardas modernistas com suas invenções e inquietações, numa reação aos antigos princípios realistas e naturalistas acabaram atraindo o olhar agudo de artistas, teóricos, técnicos, escritores e pensadores para essa linguagem artística. E nessa evolução artística, o Teatro de Animação, fazendo uso de objetos e/ou bonecos vai servir de referência e novas influências para o trabalho do ator em cena, causando transformações evidentes na interpretação cênica que predominava naquele momento (1).

Um teórico capacitado e respeitado como Henry Jurkowski (2000) aponta que “as verdadeiras transformações do Teatro de Animação são identificadas, não como produto desse momento das interferências da vanguarda modernista: mas ocorridas nas décadas de 1950 e 1960, quando o Teatro de Animação se fortalece enquanto uma linguagem com códigos específicos”. (2).

Poderíamos apontar diversos outros teóricos, casos ou momentos de transcendência na recente história das artes cênicas, mas para encurtar caminhos, vamos indicar somente algumas alternativas de ideias, justamente porque estamos no campo dessas ideias. Isso quer dizer que simbiose, junção ou contraposição de ideias no campo teatral podem e geram transformações cênicas – quer seja do ator versus boneco, ou de formas animadas versus ator, entre outras correlações. E como resultado desse jogo de influências, temos evolução técnica, crescimento cênico, autoridade ou excelência teatral.

Espaço do Boneco ou do Ator?

Um dos focos principais desse artigo é apontar ou expressar influências estruturais do Teatro de Animação em todo o fazer teatral, tanto no que tange ao trabalho do ator, como no pensamento geral ou particular da encenação através de diretores, escritores, encenadores, cenógrafos, figurinistas, maquinistas, iluminadores, músicos, sonoplastas, designs sonoros, entre outros profissionais do gênero teatral.

Podemos ver hoje em todo o Brasil, a presença cada vez mais evidente de bonecos ou formas animadas em espetáculos estruturados como de teatro convencional. Aqui pergunto aqui se esse fenômeno não seria uma suposta invasão do boneco no espaço de trabalho do ator? Ou se existe um certo exagero do uso de formas animadas em ambientes que não lhes dizem respeito? Seria essa uma tendência que veio para ficar? Ou então uma pequena moda que logo passará?

Quem saberia a resposta certeira? Talvez ninguém – ainda. Um fato é que houve e há realmente uma certa invasão cênica do boneco ou forma animada no espaço original do ator. Basta assistir espetáculos, principalmente infantis, que logo essa variável irá tornar-se verificável, de fato.

Facilidade ou Invasão Cênica?

Por via de todas as dúvidas, como bonequeiro que sou há 19 anos e Coordenador da Cia. Articularte Teatro de Bonecos, arrisco apontar que devemos ficar de olhos bem atentos, para criticar possíveis abusos, ou exageros, para que nem o ambiente do ator fique sobrecarregado de bonecos, nem o espaço das formas animadas sofra prejuízos, ou possíveis empréstimos indevidos. Zelar por todas as artes e também por cada uma delas, poderá ser a melhor medida.

O que precisaríamos levar em conta, acredito, seria criar profundidade de pesquisas tanto em um gênero quanto em outro. Ou seja, queremos lembrar que não existe o verbo grego “criar” – existe sim um outro verbo mais palpável e amigável: “descobrir”. A partir desse princípio ou dádiva, então, faz-se sugestão de que façamos mais pesquisas (com menos preguiça), mais trabalho, suor e lágrimas em cada área de atuação, para que todos possam crescer, sempre a partir de suas próprias profundidades, riquezas e descobertas.

Não é apelando para anedotas de primeira mão que vamos fazer evoluir as artes cênicas diante das artes da animação. Nesse caso, sabemos que o bonde da história está em pleno trânsito e evolução. e a partir de agora tudo vai depender do nosso trabalho teatral, da nossa pura imaginação, para que nada fique estanque. Assim sendo, todas as áreas e gêneros poderão se ajudar, sem a necessidade de se confundirem, ou serem usadas-abusadas como mero efeito pelo efeito, ou causa pela causa. É preciso mergulhar e trabalhar com arte para descobrir mais arte.

Referências:

1. CAVALCANTE, Caroline M. H. A interpretação com o objeto: reflexões sobre o trabalho do ator-animador. 134 p. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Teatro) – Programa de Pós-Graduação em Teatro, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.
2. JURKOWSKI, Henryk. Métamorphoses: La marionnette au XX siècle. Tradução: Eliane Lisboa. CharlevilleMézières: Éditions Institut International de la Marionnette, 2000.

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